Que primavera é a sua?
Há uma pergunta que costuma chegar junto com a primavera:
o que vai florescer em você?
A pergunta aparece nas imagens de flores abertas, nos convites para recomeçar, nas promessas de renovação. E há mesmo um encantamento nessa passagem. As árvores despontam coloridas, amarelos e rosas chamam os olhos no horizonte, e a natureza parece dizer que alguma coisa está começando outra vez. A primavera chegou e existe uma expectativa silenciosa de que também estejamos prontas para florir.
A natureza discorda
Mas nem toda árvore floresce na primavera.
Algumas não florescem todos os anos. E outras nunca vão florescer, porque não está na sua natureza.
Na natureza, isso parece simples. Em nós, custa mais. É difícil aceitar que uma mesma estação tenha tempos diferentes.
Talvez este seja o seu ano de florescer. Talvez alguma coisa esteja pedindo passagem, querendo ganhar forma, ser vivida.
Mas talvez não. E isso não interrompe a primavera. Também faz parte dela.
O que não se vê
A natureza não coloca todas as suas forças naquilo que pode ser visto.
Enquanto uma árvore floresce, uma parte dela permanece invisível, sustentando o que aparece. Há matéria voltando à terra, raízes que continuam seu trabalho, sementes cujo tempo ainda não chegou.
Quando olhamos só para a flor, perdemos uma parte da estação.
Com a gente acontece o mesmo. Uma parte sua pode estar se abrindo para o mundo enquanto outra ainda precisa ficar recolhida. Algo pode estar terminando enquanto outra coisa começa. Um desejo novo pode conviver com o que ainda não foi compreendido.
Nem tudo precisa participar do mesmo movimento.
A pergunta suspeita
Por isso desconfio um pouco dessa pergunta tão bonita. Ela pressupõe que vamos florir, e que já sabemos disso.
E se não soubermos? E se houver um silêncio que você ainda não sabe nomear? Um luto que ainda não foi compreendido? Um tempo em que a vida parece menos interessada em produzir do que em assimilar o que aconteceu?
Talvez exista uma diferença importante entre não florescer e ainda não florescer.
Uma árvore não precisa dar flores para provar que a primavera chegou. E nós talvez não precisemos transformar toda mudança interior em algo visível para reconhecer que estamos vivendo uma estação.
Talvez a pergunta mais interessante não seja "o que vai florescer em você?".
Talvez seja:
Que primavera é a sua? A Inteligência da Primavera.
Porque a primavera não é uma ordem para florescer. É uma estação. E dentro dela a vida pode estar fazendo coisas muito diferentes.
Antes da flor, já havia vida
A flor é uma invenção extraordinária, mas não é o começo da vida vegetal. Durante centenas de milhões de anos, a Terra foi coberta por plantas que não produziam flores como as conhecemos hoje. Musgos, licófitas, samambaias e coníferas percorreram eras inteiras sem depender de pétalas para existir. As samambaias, aliás, continuam se reproduzindo por esporos até hoje.
As plantas com flores, chamadas angiospermas, aparecem com segurança no registro fóssil no início do Cretáceo, há cerca de 130 milhões de anos. Alguns fósseis, como os atribuídos a Nanjinganthus, levantaram a possibilidade de flores bem mais antigas, do Jurássico, há mais de 174 milhões de anos.¹ A ciência ainda debate essa história, mas uma coisa é evidente: a vida vegetal não começou quando a primeira flor se abriu.
A flor é vida. Mas é apenas uma das formas que a vida encontrou para continuar.
Basta olhar para uma floresta. Há vida no tronco, na raiz, no fungo, na folha caída e na semente que ainda não se mexeu. Mas esquecemos essa inteligência quando olhamos para nós mesmas. Passamos a considerar válida apenas a vida que pode ser fotografada, anunciada e reconhecida pelos outros.
A cultura do desempenho espiritual criou uma versão delicada da mesma cobrança. Você precisa curar, elevar, manifestar, recomeçar e florescer. Até o descanso precisa produzir alguma coisa. Até o silêncio precisa ser preparação para uma versão melhor de você.
Mas a natureza não trabalha com uma única linha de progresso.
Os cinco destinos de uma semente
Uma semente pode dormir. A dormência não é falha do desenvolvimento. É um mecanismo de proteção que permite esperar condições mais favoráveis de umidade, temperatura, luz ou recursos.
Uma semente pode virar alimento. Pode ser comida por um animal, transformada em óleo, incorporada à terra ou dissolvida em outro ciclo. Nem toda semente precisa conservar a própria forma para participar da continuidade da vida.
Uma semente pode abrir no escuro. A maior parte das germinações acontece debaixo da terra, longe do olhar, sem anúncio e sem plateia. Há até sementes para as quais a luz inibe o despertar: elas só germinam no escuro. O crescimento não precisa ser testemunhado para ser real.
Uma semente pode gerar uma árvore que nunca dá flor. A araucária, a árvore do pinhão, produz suas sementes sem jamais ter florescido. Ela pertence às gimnospermas, como os pinheiros, e forma o pinhão em pinhas, sem pétala e sem fruto. Existe vida vegetal que não precisa cumprir o roteiro da flor para continuar existindo.
E uma semente pode voltar à matéria-prima. Pode perder a forma que tinha e tornar-se adubo, raiz, alimento ou possibilidade. Na alquimia, a prima materia é a matéria inicial, ainda sem forma definida, da qual uma obra pode partir e para a qual pode retornar. Aqui, ela não é uma promessa de transformação. É a permissão para não saber ainda o que está nascendo.
Esses destinos não formam uma escada. Nenhum é superior ao outro. Dormir não é um estágio inferior a florescer. Servir de alimento não é fracasso. Não abrir não significa não ter existido.
O mito também conhece a demora
Os mitos da primavera nunca foram apenas histórias de flores bonitas. Muitos nasceram da perda, da espera e da alternância.
No mito de Deméter e Perséfone, a descida da filha ao mundo subterrâneo e o luto da mãe interrompem a fertilidade da terra. O mito não elimina o inverno. Ele mostra que nada floresce para sempre e que a separação também reorganiza o mundo.

Blodeuwedd, figura da tradição galesa, é criada a partir de flores para ser a esposa de um homem. Quando passa a seguir o próprio desejo, é punida e transformada em coruja, ave da noite. A flor não foi o seu destino final. Foi a forma que outros escolheram para ela.

Esses mitos são modos antigos de perguntar o que acontece quando a vida não obedece ao desejo humano de continuidade. A primavera pode conter a perda. O florescimento pode ser breve. E, às vezes, uma forma precisa desaparecer para que outra apareça.
O que uma flor preta sabe
As chamadas flores pretas quase nunca são pretas de fato. Parecem negras porque concentram pigmentos em tons de vinho, roxo e vermelho profundo. As antocianinas, especialmente as derivadas da cianidina, participam da produção dessas cores intensas.³
O escuro da flor não é ausência de cor. É excesso de cor.
Isso muda a leitura do que parece apagado. Nem tudo que está escuro perdeu a vida. Às vezes há concentração. Há força recolhida. Há uma experiência tão densa que ainda não pode ser traduzida em brilho.
A flor escura também interrompe a estética pastel da primavera. Ela não pede que a estação seja suave o tempo todo. O quase preto fala de profundidade, maturação e mistério, sem precisar ser lido apenas como luto.

A primavera que não pede apenas exuberância
Talvez você esteja encerrando uma relação, um trabalho, uma casa ou uma versão de si mesma. Enquanto todos chamam isso de recomeço, você ainda está tentando compreender o que terminou. Nem todo fim precisa se transformar imediatamente em começo.
Talvez você tenha aprendido tão bem a cumprir expectativas que já não reconhece o próprio desejo. Cursos, práticas, autocuidado, trabalho, família. Tudo funcionando por fora, enquanto alguma coisa por dentro pede silêncio.
Você não está atrasada porque não floresceu na data esperada. Você está vivendo o seu ciclo.
Existem calendários que recebemos da família: a idade para casar, ter filhos, prosperar, construir uma carreira, finalmente "dar certo". Mas pertencer não significa repetir o calendário de quem veio antes.
Às vezes chamamos de atraso aquilo que apenas não aconteceu no mesmo tempo em que aconteceu para quem está ao nosso lado. Uma árvore não olha para outra para decidir quando deve florescer. Cada vida responde ao próprio solo, às próprias raízes e às próprias estações.
Se você conhecer o taro do Osho, a carta da amizade vai te lembrar sobre as árvores.

Talvez a sua primavera não esteja pedindo uma flor.
Que primavera é a sua?
A primavera que você vive não precisa se parecer com a de outra pessoa. Pode ser a primavera da dormência. A de devolver à terra o que terminou. A de abrir no escuro, sem contar para ninguém. A de reconhecer que você tem valor mesmo sem dar flor nem fruto.
Pode ser, ainda, a primavera da prima materia: aquela em que você não precisa definir imediatamente o que está se tornando.
A Inteligência da Primavera não está em obrigar tudo a florescer. Está em reconhecer os muitos destinos que tornam a vida possível.
Por isso, antes de perguntar "o que eu vou conquistar nesta estação?", experimente perguntar:
Que primavera é a minha?
Talvez a resposta seja uma flor.
Ou seja uma semente dormindo.
Talvez exista a matéria escura, fértil e sem forma, de onde alguma coisa poderá partir quando chegar a hora.
No dia 22 de setembro, noite do equinócio, às 21h, Aula- Ritual de Equinócio A Inteligência da Primavera com Ana Terazu e Aine Aure.
De 23 de setembro a 31 de outubro, a jornada continua em micro-rituais, online e presencial na Casa Sol.
Referências
1. Fu, Q. et al. (2018). An unexpected noncarpellate epigynous flower from the Jurassic of China. eLife, 7, e38827.
2. Platão. Fedro, 276b.
3. Thill, J. et al. (2012). "Le Rouge et le Noir": a decline in flavone formation correlates with the rare color of black dahlia (Dahlia variabilis hort.) flowers. BMC Plant Biology, 12, 225.







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