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Do Rosa ao Negro

há 6 horas
7 min de leitura


Uma travessia pelo amor, pela sombra e pelo próprio reino

Às vezes, uma travessia começa com uma escolha que parece simples: o quartzo rosa. Quando uma mulher conhece o universo dos yoni eggs, essa costuma ser uma das primeiras pedras que procura. Talvez porque, antes mesmo de segurá-la, já reconheça nela uma imagem familiar: a do amor que acolhe, da delicadeza, da promessa de ser escolhida.

Mas talvez a gente não esteja escolhendo apenas uma pedra. Talvez esteja escolhendo uma maneira de se aproximar de tudo o que aprendeu a chamar de amor.

É por isso que Do Rosa ao Negro não é uma história sobre abandonar a ternura para se tornar forte. É uma travessia: do amor que esperamos encontrar ao amor que, pouco a pouco, aprendemos a reconhecer e a sustentar em nós.

O rosa: a promessa do amor

O quartzo rosa é uma imagem de suavidade. Ele nos leva ao campo das flores, dos perfumes, da intimidade com a natureza, a um lugar em que a delicadeza não significa fraqueza, mas uma forma sensível de estar no mundo. Nesse cenário simbólico encontramos Kore, a jovem que, na mitologia grega, ainda está ligada à vida da superfície e ao vínculo com sua mãe, Deméter.

Antes de entrarmos nesse mito, vale olhar para Woman Holding an Apple, de Ticiano. A mulher da pintura segura um fruto junto ao corpo. Para este percurso, podemos recebê-la como uma pergunta em imagem: o que esperamos que o amor nos ofereça? O fruto pode nos lembrar a promessa, o desejo, aquilo que parece estar ao alcance da mão e que, mesmo assim, ainda procuramos fora de nós.

Retrato de mulher em vestido verde e coroa floral, com as mãos juntas, sobre fundo escuro, em pose serena.
Woman Holding an Apple, Ticiano, c. 1550.

Uma mulher, um fruto e a expectativa de que algo desejado venha ao nosso encontro.

O quartzo rosa costuma abrir justamente esse território. Em relatos de mulheres que o escolhem para acompanhar seu trabalho simbólico, aparecem sonhos com a mãe, a avó ou a própria infância. Surgem lembranças de como o carinho era dado, das formas de afeto que faltaram e das maneiras que encontramos para sermos amadas. Não são experiências que toda mulher terá, nem precisamos atribuí-las a uma ação mecânica do cristal. Podemos entendê-las como parte de uma atenção que se volta para dentro: quando um símbolo nos toca, ele pode nos ajudar a perceber imagens, perguntas e sentimentos que já estavam à espera de espaço.

Então, junto da imagem delicada do rosa, podem nascer perguntas menos delicadas e muito importantes: como aprendi a ser amada? O que acredito que preciso fazer para receber amor? Quantas vezes confundi amor com ser escolhida?

Talvez seja aí que o quartzo rosa revela sua profundidade. Ele não fala apenas do amor romântico, bonito e esperado. Fala também das marcas que o amor deixou e da criança que ainda deseja ser vista. O rosa nos aproxima da ternura, mas também nos convida a cuidar dela.

Algumas mulheres contam que perdem o ovo de quartzo rosa. Procuram na bolsa, nas gavetas, refazem os caminhos; às vezes encontram a pedra, às vezes não. E acontece muito dela estar simplesmente usando o yoni egg e achar que perdeu . No plano concreto, perder um objeto pode ser apenas isso: perder um objeto. Mas a experiência pode ganhar outro sentido quando olhamos para ela simbolicamente. A busca que começou pela pedra pode acabar nos levando a uma pergunta: o que estou procurando fora que também precisa ser cultivado dentro de mim?

O mesmo cuidado pode surgir quando uma pedra se trinca. Uma mudança brusca de temperatura, como colocar uma pedra muito quente ou muito fria em água pode contribuir para que ela se quebre. Essa é uma explicação material. O significado que cada pessoa encontra no acontecimento é outra coisa. Para algumas, a fratura se torna um convite a olhar para o próprio cuidado: onde tenho sido dura comigo? O que é delicado em mim e precisa de atenção, sem controle e sem abandono?

A descida: quando a menina encontra a sombra

No mito, Kore não permanece para sempre entre as flores. Ela é levada ao mundo subterrâneo e, depois dessa descida, passa a ser conhecida como Perséfone. A história não termina no rapto: nela há separação, busca, retorno e uma transformação que faz a jovem passar a ocupar também o lugar de rainha do submundo.

Nem toda transformação precise ser violenta, mas há momentos em que já não conseguimos voltar a ser quem éramos antes de enxergar certas coisas.

É nesse ponto da travessia que a obsidiana pode entrar como símbolo. Ela é muito diferente do quartzo rosa: não é um mineral cristalino, mas um vidro vulcânico natural, formado quando o material derretido esfria rapidamente. Na linguagem simbólica, sua superfície escura e sua origem ligada ao fogo oferecem uma imagem para aquilo que foi transformado e para o que ainda precisa ser visto.

A obsidiana não promete respostas fáceis. Ela pode acompanhar perguntas que pedem honestidade: onde estou me abandonando? Que vínculo já terminou, mas continua ocupando espaço? O que espero que alguém faça por mim e posso começar a fazer por mim mesma?

Olhar para essas questões pode assustar, porque nem sempre permanecemos em um lugar apenas por não saber sair. Às vezes, ele também nos oferece alguma recompensa: a segurança de ser escolhida em vez de escolher, o reconhecimento de caber em um papel conhecido, a proteção de não precisar aparecer por inteiro. Perceber isso não é motivo para culpa. É uma chance de compreender o que aquele lugar nos dava e de começar a imaginar outras formas de viver.

A descida, então, não significa que a mulher deva enfrentar tudo sozinha. Significa que ela começa a reconhecer a própria participação na história e a recuperar espaço para escolher. É uma passagem da espera para a presença; do “quem virá me salvar?” para “que apoio preciso, e que parte do caminho já posso sustentar?”.

O próprio reino

Há uma imagem que pode acompanhar essa mudança: o desenho de Parmigianino conhecido como Seated Draped Woman Holding a Globe in her Right Hand, a Staff in her Left.

Esboço em preto e branco de mulher sentada, com braços erguidos, em fundo claro e moldura escura.
Seated Draped Woman Holding a Globe in her Right Hand, a Staff in her Left, Parmigianino.

A mulher segura uma esfera. Podemos olhar para esse gesto sem precisar fechá-lo numa interpretação única: a esfera nas mãos da figura nos oferece uma imagem para o mundo que começa a caber no próprio campo de ação da mulher. Já não se trata somente de esperar que alguém lhe entregue um lugar; trata-se de reconhecer que ela também pode ocupá-lo.

A esfera nas mãos como imagem de um mundo que começa a ser reconhecido como próprio.

Às vezes, essa mudança aparece em gestos cotidianos. A mulher volta a usar um batom vermelho, escolhe uma roupa mais colorida ou experimenta um acessório que antes achava chamativo demais. De fora, pode parecer apenas uma questão de estilo. Por dentro, talvez a pergunta seja outra: por que eu estava tentando desaparecer?

O corpo também pode ganhar um novo lugar nessa conversa. A sexualidade deixa de ser pensada somente como uma forma de chamar atenção, conquistar aprovação ou ser validada pelo olhar de alguém. Ela pode se tornar uma relação mais íntima com o próprio corpo, com o desejo, com o prazer e com a capacidade de dizer sim, não, agora ou ainda não. Não é preciso representar uma mulher poderosa ou sensual. O movimento pode ser mais simples e mais profundo: deixar de existir apenas através do olhar do outro.

O retorno não é uma volta ao começo


Mulher em túnica dourada é puxada para cima por outra de azul num penhasco, em cena dramática e luminosa.
The Return of Persephone, Frederic, Lord Leighton, c. 1890–91. 

Em The Return of Persephone, de Frederic, Lord Leighton, Perséfone emerge do submundo amparada por Hermes, enquanto Deméter a espera. A pintura nos oferece uma imagem de retorno, mas não de retorno ao estado anterior. Quem volta traz consigo a memória da descida. A menina das flores continua ali; junto dela, existe agora a mulher que conhece outros territórios.

. Ela retorna; e a mulher que retorna já carrega em si a experiência do submundo.

Talvez essa seja a passagem mais bonita do rosa ao negro. No rosa, podemos perguntar: quem vai me amar? No negro, talvez comece a nascer outra pergunta: quem sou eu quando não estou esperando ser escolhida?

Uma pergunta não apaga a outra. O rosa não precisa desaparecer para que o negro apareça. A delicadeza não é descartada; ela ganha companhia. A menina continua existindo, agora ao lado da mulher que conhece seus desejos, reconhece seus limites e começa a ocupar o próprio reino. A flor permanece e há também a romã, a terra, a sombra e o mistério.

É assim que imaginamos Do Rosa ao Negro: não como uma troca de uma pedra por outra, nem como uma promessa de que um objeto produzirá uma transformação, mas como um caminho simbólico para escutar o que o amor revela sobre a nossa história. O quartzo rosa pode nos aproximar das imagens de ternura e das primeiras perguntas. A obsidiana pode acompanhar a descida às perguntas que pedem coragem. E, entre uma coisa e outra, pode haver espaço para reconhecer uma forma de amor menos dependente de ser escolhida e mais próxima de estar presente para si.

Foi dessa inspiração que nasceu, nesta primavera, a Constelação do Rosa ao Negro.

Ela reúne dois atendimentos individuais, para que cada mulher percorra a travessia a partir da própria história, dos vínculos, das imagens e das questões que surgirem no processo. Ao caminho se somam duas aulas: A Alquimia do Amor, dedicada às imagens e às histórias que construímos em torno do amor; e O Véu do Poder, um convite a olhar para as sombras, as projeções e a passagem em que a mulher começa a reconhecer o próprio lugar.

Se esse percurso conversa com algo que você está vivendo, fica o convite para se aproximar. Talvez a sua travessia comece com uma lembrança, um sonho, uma pergunta ou simplesmente com a vontade de se escutar de outro jeito. Não é preciso saber, desde o início, onde o caminho vai terminar.

Às vezes, basta começar pelo rosa e permitir que a própria história revele o que vem depois. Com amor, Anaterazu

 
 
 

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