Iemanjá: A Rainha do Mar ou do Rio, Branca ou Negra?
- Ana Terazu

- há 4 dias
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Desvendando os Mistérios da Grande Mãe!
Já parou pra pensar em Iemanjá? Aquela figura poderosa, rainha das águas, presente em estátuas, filmes e, claro, nas festas de 2 de fevereiro. Uma imagem tão conhecida que parece imutável. Mas será que a Iemanjá que aprendemos a ver é a Iemanjá original? Ou será que sua história é muito mais profunda?
Deusa do Rio na África, Rainha do Mar no Brasil
Muita gente se surpreende ao descobrir que a Iemanjá que nasce na Nigéria, no panteão iorubá, não era a rainha do mar. Sua morada original eram as águas doces, especialmente associadas ao rio Ogun. Sim: a Rainha do Mar foi, antes de tudo, Rainha do Rio.
Mas então, como essa divindade das águas internas se tornou a senhora dos oceanos? A resposta é dura, histórica e atravessada por violência: o tráfico negreiro.
Pessoas arrancadas de suas terras, separadas de suas famílias, atravessaram o Atlântico em condições desumanas. No meio do oceano ( desconhecido, aterrador ) clamaram por proteção. E foi à divindade das águas que conheciam que recorreram. Iemanjá foi invocada para sustentar a travessia.
Populações oriundas da região onde Iemanjá era cultuada como divindade principal foram escravizadas, transportadas nos navios negreiros e pediram por seu amparo. Nesse contexto, Iemanjá deixa de ser apenas uma divindade de água doce na África para se tornar, no Brasil, uma divindade de água salgada.
Essa mudança não foi apenas geográfica. Foi simbólica, espiritual e política. Um gesto de resistência. Iemanjá se transforma com seu povo, tornando-se guardiã da travessia, da sobrevivência e da memória. Assim nasce a Rainha do Mar que conhecemos hoje.
Iemanjá Branca? Um Reflexo do Racismo!
Aqui entramos em um ponto sensível: a imagem de Iemanjá como uma mulher branca. Se sua origem é africana, como ela se tornou loira, de olhos claros, no imaginário popular? Talvez um antigo moço chamado Jesus também tenha passado por algo parecido.
A resposta está no racismo estrutural que marca a formação do Brasil. As culturas africanas foram sistematicamente demonizadas, perseguidas e apagadas. Tudo que era negro foi associado ao perigo, ao atraso, ao pecado.
O Candomblé foi criminalizado. Seus praticantes, perseguidos e presos. Objetos sagrados foram apreendidos. Muitas imagens originais de Iemanjá, com feições africanas, simplesmente desapareceram.
Esse processo tem nome: epistemicídio - a destruição do conhecimento, da memória e da cosmovisão de um povo. Embranquecer Iemanjá foi uma forma de torná-la “aceitável” dentro de uma sociedade que rejeitava suas raízes africanas.
Mas a Grande Mãe retorna. Ela resgata sua história, sua cor, sua origem. As águas que eram doces tornam-se salgadas , como um rio que corre inevitavelmente para o mar.
Sincretismo: União ou Apagamento?
E o sincretismo? A ideia de que Iemanjá se misturou com Nossa Senhora, explicando por que a festa de 2 de fevereiro coincide com o dia de Nossa Senhora das Candeias. À primeira vista, parece uma narrativa de união. Lembra, inclusive, mitos antigos como o de Ísis, que ecoam em Maria.
No entanto, muitos estudiosos alertam: nesse contexto, o sincretismo pode funcionar como um eufemismo para o racismo.
Os africanos escravizados e seus descendentes sabiam muito bem distinguir Iemanjá de Maria. A “mistura” não foi ingenuidade espiritual, mas estratégia de sobrevivência. Uma forma de manter seus cultos vivos sob a vigilância e repressão do catolicismo imposto.
A Umbanda, surgida no século XX, também desempenhou um papel importante nesse processo. Ao integrar espiritismo, cristianismo e elementos africanos, algumas vertentes ( especialmente a chamada Umbanda Branca ) reforçaram o embranquecimento dos orixás, buscando distanciamento das raízes africanas como forma de aceitação social.
A Sereia Europeia e a Iemanjá Brasileira
Por fim, a imagem da sereia. Sedutora, mística, encantadora e profundamente europeia.
O mito da sereia, metade mulher, metade peixe, chega ao Brasil no século XIX, importado da Europa. E, como não poderia deixar de ser, a sereia do imaginário ocidental é branca.
Mesmo com o nome Iemanjá significando “mãe cujos filhos são peixes” (Yèyé omo ejá), a figura da sereia branca encaixou-se perfeitamente no processo de embranquecimento. Ela se sobrepôs a outras entidades aquáticas brasileiras, como a Iara indígena, e ajudou a consolidar uma imagem de Iemanjá cada vez mais distante de suas origens africanas. Mas que também começou a ser cultuada em outros grupos religiosos com a expansão de Iemanjá através de diversos atributos , afirmando o sincretismo.
E Agora? Qual Iemanjá a Gente Cultua?
A história de Iemanjá espelha a nossa própria história: marcada por deslocamentos, resistências, adaptações, transformações e apagamentos.
Reconhecer Iemanjá como uma divindade negra, africana, é um gesto de justiça histórica. É valorizar a força, a resiliência e a beleza de uma cultura que moldou profundamente o Brasil.
Da próxima vez que você pensar em Iemanjá, lembre-se de sua travessia. Lembre-se de que ela é mais do que uma imagem: é maternidade, resistência e poder ancestral que atravessa rios, mares e vidas.
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Com amor,
Anaterazu









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